De geração em geração: parcerias entre mães e filhas mantêm viva a tradição de negócios no Sul de Minas
De geração em geração: parcerias entre mães e filhas mantêm viva a tradição de negócios Empreender em família tem ganhado uma nova configuração no S...
De geração em geração: parcerias entre mães e filhas mantêm viva a tradição de negócios Empreender em família tem ganhado uma nova configuração no Sul de Minas: mães e filhas dividem não apenas laços afetivos, mas também a gestão de negócios que atravessam gerações. Em Itajubá e Piranguinho (MG), por exemplo, essa convivência dentro do ambiente de trabalho tem se transformado em sociedades consolidadas, com continuidade, inovação e fortalecimento do comércio local. 📲 Siga a página do g1 Sul de Minas no Instagram Em Itajubá, uma loja com mais de 30 anos no comércio local vive uma nova fase com a gestão conjunta de mãe e filha. Teresa Cristina Pessoa Weirich iniciou o negócio de forma simples e construiu a trajetória ao longo das décadas. Já a filha, Paula Pessoa Weirich, formada em Engenharia Elétrica e com experiência no Rio de Janeiro, retornou à cidade em 2017, passou a atuar na empresa e, depois, se especializou em Design de Interiores, trazendo novas perspectivas. Ao falar sobre o início da parceria, Paula destaca que o maior desafio foi a adaptação da mãe à nova configuração. "Curiosamente, o maior desafio veio dela mesma, no melhor sentido. Ela sempre sonhou em nos ver formadas trabalhando fora, então a ideia de ter as filhas na loja não era exatamente o plano dela. Mas, aos poucos, ela foi percebendo que esse era o meu perfil, que eu estava no lugar certo e que gosto genuinamente do que faço. Ver essa percepção mudar nela foi muito especial", relembra. Paula Pessoa Weirich e Teresa Cristina Pessoa Weirich trabalham juntas na loja da família em Itajubá. Arquivo Pessoal Com o tempo, a convivência profissional exigiu ajustes e contribuiu para fortalecer a relação e modernizar o negócio, com avanços na presença digital e parcerias no setor. "Foi um processo que exigiu maturidade das duas partes. É fundamental estabelecer espaços e respeitar hierarquias, mesmo dentro da família. Mas o que mais nos surpreendeu foi o quanto passamos a nos enxergar de forma diferente, nossa admiração mútua cresceu muito", afirma Teresa. Paula também ressalta a admiração pela mãe. "A resiliência, sem dúvida. Ela mantém a loja há mais de 30 anos. É uma referência para mim, não só como mãe, mas como profissional." “Hoje atendemos filhos de clientes que estão conosco há décadas. Isso mostra a força dessa relação construída ao longo do tempo”, relatam mãe e filha. Paula e Teresa juntas na loja da família, em Itajubá Acervo Pessoal Aprendizado que nasce dentro de casa Vinda de uma família de empreendedores da cidade de Itajubá (MG), Ana Catarina Castro Leite, empresária, cresceu acompanhando a mãe, que trabalhava como confeiteira. Hoje, ela vê a filha, Maria Cecília, de 11 anos, seguir o mesmo caminho. Segundo Ana Catarina, o interesse da menina pelos negócios surgiu ainda na infância. “Aos 4 anos, ela disse que queria ter a mesma profissão que eu. Foi quando percebi que isso já fazia parte dela”, conta. Ela afirma que o incentivo aconteceu de forma natural, conforme a filha demonstrava interesse pelo trabalho. Com o passar dos anos, a participação da filha aumentou. Um dos momentos mais marcantes, segundo Ana Catarina, aconteceu quando Maria Cecília pediu a própria loja de presente de aniversário. “Meu maior orgulho foi quando, aos 10 anos, ela pediu que o presente fosse ter a própria loja. Fomos investindo aos poucos e hoje o negócio leva o nome dela”, relata. A empresária conta que começou a trabalhar por conta própria ainda jovem, após engravidar aos 17 anos. “Eu tinha muito medo, mas também muita força para seguir em frente. Trabalhei em vários empregos e, quando ela tinha 2 anos, abri minha primeira empresa. Desde então, a Maria sempre observou e participou dessa rotina”, lembra. Ana Catarina, na época, grávida de Maria Cecília; mãe e filha juntas em momento de lazer Arquivo Pessoal Tradição familiar atravessa gerações Em Piranguinho (MG), a parceria entre Sônia Regina Guedes Torino e as três filhas, Ana Carolina Torino da Silva, Raquel Torino e Joana Torino, representa a continuidade de um negócio familiar tradicional: a Barraca Vermelha. Sônia lembra das dificuldades enfrentadas no início da empresa. “Começar naquela época foi muito difícil. Não havia supermercados ou facilidade para conseguir matéria-prima”, recorda. Segundo ela, a entrada das filhas ajudou a modernizar e ampliar o negócio. Ana Carolina, a mais velha, se formou e começou a trabalhar na empresa. Em seguida, as outras duas filhas, Raquel e Joana, também ingressaram na Barraca Vermelha. “A Barraca Vermelha trabalhou por muitos anos apenas com pé de moleque. Depois da entrada das filhas, passamos a oferecer mais de 20 produtos aos clientes”, afirma. Mulheres no comando da Barraca Vermelha, em Piranguinho (MG) Acervo Pessoal Ana Carolina conta que a ligação com a empresa começou ainda na infância. “A decisão já estava em mim desde criança. Na adolescência, eu já ajudava no atendimento. Depois, comecei na parte administrativa durante a faculdade de Administração”, relata. Ela também destaca a admiração pela mãe. “Minha mãe é uma mulher muito guerreira e batalhadora. Eu sinto um orgulho gigantesco dela”, diz. Mãe e filhas na fábrica da Barraca Vermelha, em Piranguinho (MG). Arquivo Pessoal Negócios de família são maioria entre mulheres empreendedoras Dados da Pesquisa Mulheres Empreendedoras, 4ª edição, do Sebrae Minas, mostra que 62% das mulheres empreendedoras no Sul de Minas são mães. A analista do Sebrae Minas, Amanda Cezário, destaca o crescimento dos negócios familiares liderados por mulheres: “Observamos um movimento crescente de mães empreendedoras que acabam inserindo as filhas nos negócios, fortalecendo a continuidade das empresas e a troca entre gerações”, afirma. Segundo o levantamento, 65% das mulheres empreendem por oportunidade e 35% por necessidade. Empreender em família e o impacto no mercado local O avanço de histórias como a de mãe e filha também reflete um movimento mais amplo no empreendedorismo feminino da região. Para o economista Guilherme Vivaldi, pesquisador e fundador do Geesul, muitos negócios familiares surgem como alternativa diante das dificuldades do mercado de trabalho formal, especialmente para mães que buscam flexibilidade. “O empreendedorismo acaba sendo uma alternativa para muitas mulheres, principalmente mães, que não conseguem se encaixar no mercado formal por causa da rotina com filhos e da falta de flexibilidade”, afirma. Ele destaca ainda o impacto desses negócios na economia local. “A maioria das microempresas são negócios familiares, que geram emprego, renda e pagamento de impostos, além de atender às necessidades de consumo da própria comunidade”, explica. Segundo o economista, o crescimento da participação de mães e filhas nos negócios também mostra uma mudança estrutural. “Esse movimento abre novas oportunidades e mostra que a mulher pode ser protagonista em diversos setores da economia local”, diz. A psicóloga Camila Camila Thaynara dos Santos e a analista do Sebrae Minas, Amanda Cezário Arquivo Pessoal Convivência influencia escolhas profissionais A convivência familiar também ajuda a explicar por que tantas filhas seguem os passos das mães nos negócios. Em muitos casos, o contato com os negócios começa ainda na infância, dentro de casa, acompanhando a rotina das mães no trabalho. Segundo a psicóloga Camila Thaynara dos Santos, que atua com Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Análise do Comportamento Aplicada (ABA), os comportamentos e escolhas são influenciados pela observação dentro de casa. “Quando a filha cresce acompanhando a rotina da mãe, seus valores e atitudes, isso pode influenciar diretamente suas decisões no futuro”, explica. Ela afirma que o apoio familiar pode fortalecer a autonomia e a confiança, desde que exista equilíbrio na relação. “Quando o incentivo é percebido como apoio, ele contribui para a construção da autoestima e da independência. Mas, quando é sentido como pressão, pode gerar insegurança e ansiedade”, destaca. Para a psicóloga, quando há apoio, diálogo e troca entre gerações, a convivência entre mães e filhas no ambiente de trabalho pode fortalecer vínculos e influenciar escolhas que atravessam gerações. Veja mais notícias da região no g1 Sul de Minas